sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desordem da minha natureza

"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente ordenada, mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por natureza, mas como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma, mas um signo do Zodíaco. Pergunto-me como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu próprio provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava comigo mesmo diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. É tal o meu desvario que tive que ir buscar forças à fraqueza para não me pôr em frente com um letreiro que consagrasse a minha verdade.”
(Gabriel Garcia Marquez)

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